mesinha de cabeceira


  «Eu sou um homem muito ambicioso e deixei em jovem a minha terra com a ideia fixa de me tornar alguém. (...). Assim - repito-o -, como sou ambicioso, queria percorrer o mundo inteiro e chegado aos sítios mais longínquos voltar-me e dizer na presença de todos: «Nunca ouviram o nome daqueles quatro telhados? Pois bem, eu venho de lá!».  Certos dias estudava com mais atenção que de costume o perfil da colina, depois fechava os olhos e fingia-me já a andar pelo mundo a repensar de fio a pavio a paisagem reconhecida.
  Deste modo andei pelo mundo e tive uma certa sorte. Não posso dizer que sej mais do que um outro, que me tenha tornado alguém, porque conheci tantos que - por um motivo ou por outro - se tornaram alguém, que se fosse ainda a tempo deixaria de bom grado de afadigar-me a perseguir essas quimeras. Actualmente a minha ambição sempre desperta surgeriria destinguir-me, quando muito, com a renúncia, mas nem sempre se pode fazer o que se quer. Basta dizer que vivi numa grande cidade e que fiz, por fim, muitas viagens por mar e, um dia em que me encontrava nos estrangeiro, estive quase para desposar uma rapariga bela e rica que tinha as mesmas ambições que eu e gostava muito de mim. Não o fiz, porque teria sempre de estabelecer-me nesse lugar e renunciar para sempre à minha terra.
  Em vez disso, um belo dia voltei a casa e revisitei as minhas colinas. Dos meus já não restava ninguém, mas as plantas e a casa, sim, e também algumas caras conhecidas. (...)»


a saudade in férias de agosto de cesare pavese



à memória do meu avô josé, que descansa em paz.

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