a room of one's own



na sexta-feira, foi o 'career day' (que inclui um cocktail), que dá por fim o mestrado. o objectivo é proporcionar aos estudantes, do mestrado em direito humanitário e direitos humanos, uma perspectiva do que será o mercado de trabalho e das opções que estão ao nosso alcance.

já me tinha sentido deprimida, desesperada com um conjunto de coisas relativas ao mestrado e ao que está à volta - mas o gosto, pelo mesmo, prevaleceu sempre (prevalece) - mas nunca como na sexta-feira.

a verdade é que o curso de direito me trouxe inúmeras desilusões e tirando umas quantas cadeiras e uns quantos professores, não posso dizer que me tenha preenchido por aí além - mas será que haveria outro que o fizesse? as bases foram muito importantes e, sem dúvida, um caminho até ao mestrado, de que tanto gosto. sempre me chateou o que representava o 'mundo da lei'. os conhecimentos estratégicos que fariam a diferença, a média (ponto capital), e muito pouco a paixão. achei que para o direito internacional - especialmente o direito humanitário e os direitos humanos - o essencial era, precisamente, a paixão. segundo os representantes das ONGs, da ONU, do mundo académico, não. são uma vez mais os conhecimentos estratégicos, 'construir uma rede de conhecimentos sólidos, fazer-se notar aos professores (e outros) que podem ajudar - e eu que continuo a achar que só devo falar quando tenho qualquer coisa importante para dizer, e, secalhar, é esse o problema, e tenho poucas coisas interessantes a dizer. ('mas há muitas opcções' - sim, claro).

para além do chavão conhecimentos estratégicos , os estágios não pagos (e sucessivos, já não chega um têm de ser três) como o dado mais adquirido da história, e trabalhar 24 horas por dia para «construir a nossa carreira» ('não há sábados, não há inverno, não há verão, não há férias, não me lembro da última vez que passei uma hora com a minha filha'), o que mais me chocou foi a artificialidade que não deixa de estar presente por entre aqueles que estão, do lado mais activo, a construir um mundo melhor.

o Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais diz no seu artigo 6º,nº1:

"Os Estados-Signatários no presente Pacto reconhecem o direito ao trabalho, que compreende o direito de toda a pessoa ter a oportunidade de ganhar a vida através de um trabalho livremente escolhido ou aceite e comprometem-se a tomar as medidas adequadas para garantir este direito."

será que quem visa assegurar direitos como este, o faz colocando-os em causa? em que medida é que alguém que sacrifica o seu direito a usufruir, por exemplo, do seu direito à família, o está a promover?

pensei bastante, durante o fim-se-semana, no 'career day'. cheguei a algumas conclusões, sim. não serei, muito possivelmente, alguém com a capacidade de se fazer notar e muito dificilmente abdicarei de coisas que considero essenciais para ser a pessoa que sou. não serei capaz de renunciar aos meus sonhos (ser mãe, fazer tartes de morangos. ler coisas diferentes de direito, estar a conversar com o p sem contar as horas, dar um pouco de mim aqueles que gosto) e não quero. ao mesmo tempo, encontrei uma motivação adicional e contraditória para os exames e para a tese que não sei bem explicar. de vez em quando vem-me à cabeça a expressão que alguém utilizou «geek dos direitos humanos», o desespero dos meus colegas, a falta de sensibiliadade e tecnicismo de alguns dos mais conceituados experts, mas já não me sinto como na sexta-feira. talvez porque pensar nisto me fez visitar quem sou e conhecer-me melhor.

não sei o que me espera, sei que gosto de ajudar os outros, mas também sei que prefiro entregar os lápis que são necessários para que uns quantos miúdos, que não os têm, possam desenhar, do que ser a pessoa que vai mudar o mundo inteiro, graças à sua rede de 'conhecimentos de excelência'.

e amanhã, estudo para os exames, mas não deixo de ser quem sou.

6 comentários:

du disse...

dude, o meu sonho é ser tasqueiro e olha a merda que ando a fazer...

um dia hei-de conseguir e quero-vos a todos lá a beber.
tu podes beber água se quiseres, e o p entra lá quando conseguir aviar uma irish car bomb como deve ser.

disse. vou à parolada por uns dias.

Anónimo disse...

Quando eu for presidente do GLORIOSO ponho te a fazer qualquer coisa na maior fundação do mundo:
Fundação BENFICA
Por isso não te preocupes com ajudar agora porque vais ter tempo para ser benfiquista, mãe e ajudares os outros envergando o verdadeiro símbolo: o da ÁGUIA
Beijaça e abraços
João

p disse...

Du, o p nao vai pagar para estragar cerveja (mesmo stout), nem sequer no teu futuro bar lounge chique.

Cerveja, relaxante:
http://blag.samandshannon.com/wp-content/uploads/2009/06/bob_beer_beach.jpg

Whiskey, relaxante:
http://www.papermag.com/blogs/large_mad.jpg

Irish car bomb:
http://jacobgrier.com/blog/wp-content/carbomb7.jpg

p disse...

Socio, quem fala assim nao e gago, mas ainda te faltam 20 anos ou la o que e, com os novos estatutos.

Anónimo disse...

25 anos de sócio efectivo!!!
João

Baudolino disse...

E agora, para algo completamente estúpido: se somos o que comemos, será que fico mais social e laboralmente correcto pelo facto de começar a ingerir formigas como se o amanhã não existisse? Acumularia comidinha para o Inverno. No Inverno comeria a comidinha para ter força pra poder acumular comidinha para o Inverno seguinte. Alguns Invernos depois iria para um céu de formigas:vidinha prudente, dever cumprido. E a vida?